sexta-feira, 21 de maio de 2010

A minha queda e a queda dele

Ele viajou e o avião dele caiu.
Eu sei que, na verdade, o mais provável para explicar o fato de ele não me mandar a mensagem clichê “cheguei!”, seja ele ainda estar puto comigo.
Mas eu adoro matar meus amores. Então eu fico achando que o avião caiu e, por isso, ele não me mandou nada.
Depois entro em crise de dor na consciência por tentar matar mais um amor. Mas é uma crise rápida, porque a mulher que segue sentada atrás de mim não para de tossir e isso me irrita demais para eu ficar com dor na consciência. Ela tosse a fecha a janela, bem no banco atrás do meu. Aí eu enlouqueço imaginando criaturas microscópicas voando para cima do meu cabelo, tão bem preparado com cremes caros e chapinha. Então eu me irrito e, pelo meu vidro, abro a janela dela. Eu sei que, nos dias de hoje, tem gente que morre porque abre e fecha a janela dos outros no ônibus, mas todo mundo morre o tempo todo, então foda-se. Até ele... Ele caiu de avião, lembra?

A ida para o trabalho só não consegue ser pior do que o trabalho em si. Os campos verdinhos do Aterro do Flamengo me encantam. E eles estão ali, todos os dias. Iguais, imóveis, verdes. Eu mataria também os campos do Aterro do Flamengo, se pudesse. Mas eles são enormes e me daria muito trabalho. Mesmo sendo viciada em matar meus amores, de trabalho, eu já estou ok.
A mulher, atrás de mim, fecha a janela com força. Eu vejo porque o vidro que estava ao meu lado corre para trás rapidamente. Ela fecha a porra da janela e tosse de novo. Eu respiro fundo e alto e percebo que poderia mudar de lugar - o 438 é sempre vazio. Mas não consigo. Ao contrário dos meus amores, eu mantenho vivas as coisas que me irritam, então eu permaneço bem ali. Num processo burro e auto-implicante (se é que existe este termo, porque acho que eu sou a única pessoa do mundo que gosta de “se implicar”), eu mantenho as mais diversas irritações: minha barriga, meu toque de celular enjoado e a mulher que tosse atrás de mim no ônibus que, desta vez, deve ter colocado os miolos pelo nariz, tão alto foi o escarro.
Ao sentir aquele tufo quente na minha cabeça, morro de nojo e implico mais uma vez: abro a janela.
Meu pensamento já fugia de mim novamente mas, desta vez, ela imediatamente depois a fechou e gritou, do banco de trás:
- Desculpa.


Ela me pediu desculpa.
Nesse momento, eu percebi a saudade que sinto em ouvir “desculpa”. Sim, eu a desculpo. Eu a odeio, mas eu a desculpo. Eu o desculparia também se ele pedisse. Mas ele não pede porque ele caiu com o avião. Se não tivesse caído, me escreveria “cheguei, desculpa”, tenho certeza.
Resolvi deixar a janela dela fechada e aceitei os germes cuspidos a cada cinco minutos nos meus cabelos. Ela gritou estupidamente lá de trás, mas gritou: desculpa.

Chego ao Centro tão neurótica que sinto o movimento das bactérias pelos meus fios, como piolhos. Subo o elevador, como o habitual, olho a hora no celular para calcular o tempo que devo permanecer no escritório para compensar o atraso e vejo o tão esperado envelope de mensagem recebida.
Antes de abrir, imagino que seja uma despedida amorosa escrita segundos antes de o avião cair, com “beijo, desculpa” no final. Depois penso que não. Identifico minha mórbida mania de matar amores e me alivio: o avião não caiu! Deve ser ele, dizendo que chegou, que está com saudades, eu te amo, me desculpa?.
Cansada das minhas próprias elucubrações, sento à mesa e encaro o envelope na tela do celular. Com o polegar, clico Ler Mensagem.

“Bônus: envie agora SMS com o campeão da Copa do Mundo e concorra a uma viagem à África do Sul”

- Porra! Eu não vou andar de avião. Já caiu um hoje.

3 comentários:

Existe Amor em SP disse...

hauahauahauahaahauaha

Pior quando isso acontece sexta-feira, às 21h. Ou sábado, às 19h?

Mariah disse...

Isso sempre acontece comigo.Uma merda!

Daniel Souza disse...

a gente tá sempre assassinando as coisas. SEMPRE.

e quando enjoamos ou cansamos, a gente tem aquela velha mania de ressucitar determinados mortos pra, obviamente, logo depois, assassiná-los de forma perversa.

a gente nunca presta mesmo. ( mas tem sempre alguem querendo ser aniquilado pela gente)

* sim, o post lá do blog foi repetido. :o)