terça-feira, 20 de abril de 2010

O meu mar

As ondas enchem a areia, levam água fresca e gelada até as crianças que brincam na beira. Depois o mar leva tudo embora, mas só até o momento seguinte, quando elas, as ondas, vêm novamente. É assim a minha angústia. Igual ao mar. Dentro de mim a água toda vem de baixo até muito em cima, molha a beira, mexe nos sentimentos racionais – que são os que ficam na cabeça (não, os irracionais não ficam no coração. Ficam no estômago). A água vem, mexe com os sentimentos racionais e não transborda porque eu não deixo. E é essa a diferença entre mim e o mar, que tanto transborda. O frio na barriga então volta para o seu lugar até o momento seguinte, quando ele vem novamente.

Passei o dia todo assim. Mas agora é assim; muitos dos meus dias são com esse mar revolto dentro de mim. E quando a aguaceira está prestes a sair, eu pego ar e engulo tudo de volta. Estou ficando relativamente boa nisso. Para distrair, leio poesias na tela do computador. Não gosto tanto destas quanto gosto das que estão no papel, porque poesia em computador fica sem cheiro. E eu, particularmente, sou uma pessoa muito cheiro. Mesmo assim, corro o olho em versos que por vezes conseguem ter ainda menos nexo do que eu própria. E só eu sei o quanto isso é raro. Eu sou a coisa mais desconexa que conheço.

O orgulho me ajuda a segurar minhas ondas internas. Não quero borrar meu rosto bonitinho com lágrimas sujas, injustas e pesadas. Não quero estragar meu olho, feito sob um esforço descomunal contra o sono das seis da manhã. Se eu conseguir não transbordar, o olho dura até o fim do dia.

O fim do dia. O olho dura e eu, dura que só, duro junto. Não vou me render. A vontade de me apoiar na bóia salva-vidas que flutua no meu mar é enorme – e então eu mandaria um e-mail, um SMS, uma piscada de olho para ele. Mas nessa bóia, não vou subir. Prefiro me afogar enquanto o mar ainda se agita. Daqui a pouco a maré enche enquanto eu me encho de cerveja no happy hour ordinário do Rio de Janeiro. E então eu me entrego. É a hora da calmaria.

Nenhum comentário: