domingo, 10 de maio de 2009

Dia das Mães

Entra na sala a salada de maionese, carregada por Tia Salete.
- Fiz com maionese light, viu? Assim a Paulinha pode comer.
A Tia Salete, assim como a salada de maionese dela, é implicante. A Paulinha pode comer maionese sem ser light – a restrição apenas foi colocada em um tom de: Paulinha, você está gorda.
Obviamente, ninguém percebeu, a não ser a própria adolescente de 19 anos, um pouco acima do peso.
O resto das pessoas se empapuçava de friturinhas e outras implicâncias entre si, em um ambiente muito agradável de comemoração ao Dia das Mães.
Na sala barulhenta, chegavam a farofa, levada por Eliza que, por sua vez, não era levada por ninguém – beirava os quarenta ainda solteira e temperava muitíssimo as outras conversas do sofá.
- Espia só, coitada. Está mal-cuidada, largada. Por isso não arranjou marido.

Dessa alegria plena compartilhada por pessoas que se amam demais, ficavam alheias (por enquanto) as crianças. Mais verdadeiras, chamavam-se umas às outras de feias, gordas, chatas, burras. E aos berros, corriam e abraçavam-se no final do corredor. Ainda mantêm a felicidade da ingenuidade que já está sendo podada pelos pais:
- Betinho! Venha já para cá! Eu já não te disse para não chegar muito perto da sua prima Lola? Ela tem piolhos, você quer ficar todo feio e sujo também?

O prato principal vem à mesa e com ele, traz a atenção da salivante população de mesmo sobrenome daquele lugar: um puta empadão de carne seca.
- Claudia, você fez empadão de carne seca! A Paulinha não vai poder comer, berrou preocupada e muito solidariamente Tia Salete.
Todos avançaram. Os cabelinhos brancos eram os donos da casa. Esses, limitavam-se a organizar a refeição e servir a todos com sorrisos docíssimos. Faziam parte de outra parcela, dos que já tinham entendido que tanta insinuação é inveja e futilidade junto e há muito deixaram de ser assim.

- Um brinde às Mães! – berrou o Tio Tônio, por trás de um bigode nojento que mirava discretamente à Rosane, irmã da sua mulher, a Tia Salete.
Todos se levantaram e brindaram. Comemoraram, muito felizes, felizes mesmo, e começaram a devorar seus pratos.
- Que delícia, mamãe! Você fez com o que?
- Juliana! Vem aqui almoçar, anda!
- Benzinho, vou fazer seu prato sem muita carne seca, tá?
- André! Pega um copinho de Coca para a sua Tia?
- Mãe, tem Guaraná?

E ali foram ficando até as sete.
Levantaram-se completamente pesados de tanta comida e veneninhos disparados vez em outra. Despediram-se, desejaram-se boa semana.
- Olha, o próximo evento é o aniversário do José. Quero ver todo mundo lá em casa, hein?
- Até lá.
- Até!

Um comentário:

Mar... disse...

Amiga adorei esse texto!!! Muito bom! Bjos