sábado, 16 de maio de 2009

Minimizar janela

Faz um dia lindo hoje.

Alguns dias são assim, como hoje. Parece que são transparentes de tão limpos.
O sol, na medida certa, bate nas coisas, nas pessoas, e ilumina tudo com cores levemente amarelas. Essas são as vantagens dos dias de meias-estações. E hoje é outono.
O verão e suas temperaturas extremas e quase sufocantes já se foram. Nos preparamos, então, para o nem-tão-rígido inverno carioca. Mas por enquanto, ainda é outono.

O céu de um azul profundo, igualzinho aos céus que eu via quando eu era criança, encobre as horas que passam aqui embaixo, no chão.
E um vento fresco, quase frio, bate volta e meia, trazendo para mais perto os cheiros que estavam longe.
Tudo isso acontece agora, do lado de fora da minha janela.
Porém, para algumas pessoas, como eu, não faz a menor diferença - podia estar caindo neve.

Porque eu, eu passo meus dias, sejam de verão, de inverno, de meia estação, com a mesma temperatura ambiente sempre: um frio seco que me enfurna durante oito horas diárias – ou quase isso. É muito tempo em um lugar cinza demais. Aqui há, apenas, o verde de uma plantinha minha, que sobrevive bravamente sem um pinguinho de luz natural. Fico com pena e até levaria o vaso para casa, se não tivesse recebido severas recomendações de que ‘a planta é para a mesa do seu escritório’, quando a ganhei de presente. Mesmo que essa recomendação já não faça mais tanto sentido, (porque as pessoas são assim mesmo, vão e vem o tempo todo e essa, no caso, já se foi) eu mantenho as folhinhas comigo. E ficamos aqui, eu e elas, sobrevivendo a este preto-e-branco dormente.

Mas o dia lá fora... o dia lá fora me faz salivar. Eu sou muito outono. Adoro esse clima suave, em que os rostos das pessoas, os cheiros de um cabelo que passa, as cores dos edifícios ficam mais aparentes. Quando é verão ou inverno, tudo parece passar batido – estamos sempre correndo para chegar a algum ar-condicionado ou para fugir de alguma chuva.
Outra coisa que gosto de outonos é essa temperatura previsível que sempre é, abruptamente, surpreendida por um imenso dia de calor ou um frio rigoroso, absolutamente do nada, sem ninguém ao menos esperar. Gosto dessas brincadeiras térmicas que meteorologista algum consegue explicar. Eu sou igual. Tenho uma temperatura média e, sem razões aparentes, surpreendo com sufocante calor ou frio desigual.

Daqui a pouco tenho o meu momento do dia. Uma hora lá fora. Sempre penso que tenho que aproveitar muito porque depois que volto, só saio para a rua de novo quando o sol já foi embora. Apesar de, além de outono, eu também ser muito noite, eu sinto uma tremenda falta do sol. Nunca imaginei que eu fosse ser assim. Isso deve fazer parte dos hábitos que a gente ganha depois que começa a trabalhar nesse esquema cinzento.
Não posso negar que eu até gosto dessa realidade. Da mesma maneira que eu também não posso negar que penso em dar um pé em tudo e ir vender miçangas na praia. Mas essa dúvida deve ser outra coisa de pessoas-outono. Ou de pessoas com vinte-e-poucos-anos - que agora não são tão poucos assim. Os outros saltos altos e gravatas amarradas que observo nos sinais vermelhos da cidade me parecem bastante confortáveis com essa rotina. Então, acho que uma hora a dúvida passa. Ou, pelo menos, é esquecida.

Vai saber... enquanto isso, fico por aqui. Alternando meus olhos para a tela do Windows, que coincidentemente, ou não, é janela pros gringos, e a minha janela com sol, com vento, com dia, com outono lá fora.

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