terça-feira, 20 de abril de 2010

Os outros 50%

Aí você acha que está tudo bem, seu carro foi vistoriado e passou, a companhia de celular resolveu conceder um desconto pelo bom cliente que você é, o amor da sua vida foi encontrado e você não trabalha no emprego dos seus sonhos, mas até que não é ruim.

Tudo branco como um comercial de margarina clichê, até que a vida vem e te dá uma rasteira. Exatamente a mesma vida que te colocou nas nuvens, te puxa para baixo, bem baixo, até você ficar sem chão.

Porque a decepção está por toda parte, sempre pronta para chegar. Você pode virar a esquina e se decepcionar ao ver que o caminhão de lixo está bloqueando sua passagem. Ou se decepcionar quando descobre que você está cinco e não quatro quilos acima do peso. Se decepcionar ao ver o final da novela das nove, quando encontra uma nota de dez reais falsa no chão, quando descobre que quem você pensou que fosse não é.

É tão frustrante que chega a ser lógico: quanto melhor está sua vida, mais chances de a decepção chegar. Mera lei da probabilidade: você sempre tem 50% de chance de estar bem ou mal. Quanto mais calham os 50% felizes, maior é a chance de os próximos 50% serem decepcionantes. Até o dia em que a tese se confirma.

O grande lance nessas horas é entender a matemática da coisa, de forma bem fria mesmo. Uma hora eu ia ter que levar um tombo. Estava voando havia dias, se não meses. A cada voo, mais chance de cair – lembra da história dos 50%... Um dia: plaft! Esse dia foi ontem.

Agora é entender o que está acontecendo. Abrir os olhos, esfregar minha cara na áspera realidade até ralar as bochechas. Tirar todos os origamis coloridos que coloquei para enfeitar os dias, com o cuidado de não deixar nenhum. Mas não tem problema, outros voos e quedas ainda virão. E então eu, mais uma vez, vou decorar meus dias com fitinha e flor de lápis-de-cor. Mas da próxima vez, já escolada, vou colar tudo com durex: para não ficar marca na hora de tirar.

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