Eu não dormi hoje.
Para mim, dormir não é apenas fechar o olho e desacordar. Isso o corpo faz por instinto, por necessidade. Dormir é deitar, sentir o cobertor envolver o corpo enquanto se pensa no que aconteceu e no que ainda vai acontecer, sonhar e acordar com os braços para cima, esticando as costelas.
Por isso que hoje eu não dormi. Simplesmente fechei o olho com a roupa de ontem e acordei no susto – graças ao despertador automático do meu novo e fantástico celular.
Levantei rapidamente, para minha estranheza. Geralmente, quando acordo de ressaca, demoro um pouco mais. Mas hoje o dia está inteiro diferente.
A ressaca é de álcool e choro e eu não consigo definir qual é a pior. Ambas deixam agora meus olhos inchados e pequenos, meu estômago embrulhado e meu cérebro sem trabalhar. E quando eu me lembro dos goles e dos verbos de ontem, me dá desgosto e enjôo.
Cheguei no trabalho sete e meia da manhã. Pulei da cama e vim logo numa tentativa de fazer com que o dia passe mais depressa. Tola, eu. Os dias estranhos nunca passam mais depressa. Pelo contrário, se esticam e te obrigam a viver cada minuto. E se eu não quiser viver na próxima meia hora? Depois eu até volto e me atualizo sobre os acontecimentos. Mas não dá. Esse hoje vai me obrigar a ficar aqui por todos os infinitos minutos que ele tem.
Pelo menos agora, de manhã, não é a pior hora.
O que o dia guarda para mim ainda será infinitamente mais angustiante: vou ter que encarar as refeições sem vontade de comer, o engarrafamento com a cabeça estourando e ele chegando, ali do outro lado do escritório.
Ontem tudo desceu queimando; o que ele me disse e o que eu bebi. Eu tomei álcool e foras, coloquei tudo para dentro num gole só e agora meu coração e meu estômago reclamam clemência.
Ardeu por dentro, fez o olho chorar de tão forte, bateu e engasgou minha garganta. Foi um shot de pura agressividade. - Não é o bastante, pode sentar aí e tomar outra dose. E outra e outra. Sem limite, duas horas de discussão. As cenas ficando borradas como a maquiagem que escorria pela minha bochecha. - Agora você vai até o fundo, vamos à última gota: acabar com a garrafa e com a gente.
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