segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Na Patagônia

E não é isso o que estou fazendo? Não é isso o que a gente quis, o que a gente quer? Ou talvez não se trate de querer mas, pelo menos, não foi isso o que a gente combinou? Entramos em acordo ao resolver nos deixarmos para trás. Você para lá, eu para cá, sem contato, sem tato, na mais profunda incerteza de futuro, que futuro?, vai saber. Mas a gente combinou, me lembro bem. Lá naquelas cadeirinhas desconfortáveis de um bar na Gávea, eu disse não, você concordou, eu peguei um ônibus, enquanto a chuva pegava a gente e, de repente, o meu lado era sem o seu.
Me diz, não é o certo o que estou fazendo? Buscando outras coisas, entupindo minha cabeça de besteiras para ver se as nossas besteiras saem escarradas do meu nariz. Perdida num emaranhado de braços, e pernas, e tanta falta de mim, tanta merda, tanta gente, atentamente, tentando atender ao que se exige, ao que se deve ser.
Foi assim que a gente escolheu. A mais completa falta de planos, os planos são agora panos de fundo diferentes: um para a minha vida, outro para a sua. E aí eu estudo francês, consigo um trabalho, me disfarço de loira, perco um tio, um quilo, o telefone celular três vezes seguidas e de nada você sabe. Tão pouco eu sei se você passou no doutorado, se ainda tem aquele sotaque quando fala inglês, se seus peixinhos estão vivos, se você parou mesmo de beber, se foi para a Patagônia, como a gente um dia pensou.

Mas não.

Para a Patagônia eu sei que você foi. Você me fez saber. Apesar de todo o combinado, o que foi conversado, desligado, cortado, podado, você me fez saber.
Você foi para a Patagônia. E deve ter ido a Buenos Aires, deve ter visto um show de tango como tantas vezes a gente pensou, deve ter bebido vinho, comprado perfumes gostosos, deve ter passado frio, calor, deve ter tido um amor de uma noite, outro de um dia inteiro e tirou fotos, está cheio de novos fatos, artefatos para mostrar e contar e levar com si num caminho do qual eu não mais faço parte. Inexplicavelmente, assim. Não faço parte.

De qualquer maneira, ficaram boas as fotos. Obrigada por lembrar que eu gostaria de ver. Boa viagem de volta. E, ah!, só um lembrete. As outras partes dos nossos planos que você concluir, não se preocupe em me avisar, ou me mostrar as fotos, ou me passar um e-mail. Assim dói menos, bem menos.

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