sexta-feira, 26 de junho de 2009

De papel

É branca. Branca como leite, a pele dela. Tão branca que irrita.

Perfeitos são os contornos, que desenham um rosto, um nariz fino, uma cintura rígida e pernas longas. Tudo tão límpido, que o corpo parece vestido de leite. Um creme de leite.

Ela fala baixo. Ri baixo, olha baixo, mas ela é alta.
E tem cabelos tão escorridos quanto sua pele de leite. Em uma lisura densa, os fios vão até o ombro, em tom dourado meio cinza. Ela é linda.

Ela come pouco. Bebe pouco, mexe pouco.
Um olhar lânguido complementa a mesmice do resto.
Suas cores apenas se distinguem em bochechas, lábios e unhas artificialmente rosados.

Por onde passa, não há, na cidade, quem não olhe.
Provoca as mais variadas sensações; desejo, inveja, receio. Porque ela é perfeita.
É linda, é lisa. As únicas texturas aparentes estão nas vestimentas de inverno. Um tailleur cor de púrpura com saia xadrez.

Ela se veste muito bem. Fala bem, anda bem.
A brisa da estação resseca sua boca que, entreaberta, respira quase que imperceptivelmente. Tão imperceptível, que talvez nem respire. Quão perfeita.

Nos pés, o scarpin alto finaliza o restante do corpo tão fino.
Nas mãos, uma bolsa pequena, charmosa, com o básico: cartão, celular, batom.
Nos cabelos, nada além dos fios. Rigorosamente arrumados, não se despenteiam nem com o passar do tempo.

E em cima, lá no topo, estampa-se em vermelho, em letras garrafais, o gritante título: Marie Clair.

Nenhum comentário: