Toda a vez que entro no laboratório para coletar sangue, lembro porque detesto fazer isso.
As paredes brancas e a essência etílica do ambiente me dão náuseas. Ali há doentes, células, merda armazenada em potinhos. Não gosto.
Identidade e carteirinha do plano, por favor.
Essa é a hora em que começo a ficar nervosa.
Não é a agulha. O sangue, a dor, não é nada disso. Como disse, é o teor do éter, a falta de cor dos recintos, o cheiro exacerbado de saúde.
Agulha descartável, senhora.
Nem vejo. Me sento na cadeira e já cubro os olhos com as mãos. O elástico na parte superior do braço me aperta os músculos como carne em açougue. Então as veias se espremem e são desviadas para três pequenos tubos de acrílico – ou vidro?
Em geral, nada sai. A pressão cai e fica tudo bem dentro de mim. Sabendo do desespero que sinto, parece que meu próprio sangue quer me aliviar: eu não vou a lugar nenhum, podexá.
Depois de indelicadas insistências alheias, o líquido vermelho sempre acaba enchendo as ampolas, junto com meu Ferro, meu Cálcio, meu medo, meus amores – tudo o que juntei por anos em forma de hemoglobina, direto pro moço de jaleco, que eu nem sei quem é.
Aí eu fico ainda pior.
Suor nas extremidades, a força do elástico ainda mais aparente.
Verdadeiros minutos de pavor e frio.
Hoje era mais um dia desses, de laboratório.
Abre e fecha a mão, senhora.
Comecei o movimento indicado e representado pelo enfermeiro à minha frente. Abre e fecha, abre e fecha, abre e fecha...
Tentei me manter calma enquanto meus olhos já pousavam dentro das palmas da mão e a agulha dentro de mim.
Só mais um pouquinho e pronto! Viu? Doeu?
Não. Hoje não doeu.
Saí do laboratório, peguei minha bolsa, meu casaco e meus beijos, que me esperavam na recepção.
Tomei um chocolate quente e um abraço muito apertado.
Foi bom.
Tão bom que quero até fazer de novo.
Pode?
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