Preciso escrever.
Na verdade, eu preciso berrar, me espernear, xingar, quebrar os copos, querer me jogar pela janela.
Mas além de eu não estar em um lugar propício para todas essas reações novelísticas –o escritório de trabalho é lugar de gente sorrindo, equilibrada e controlada – eu também não combino muito com esses tipos de exageros. Limito-me a dar um pulo ao banheiro para liberar algumas lágrimas no mais profundo e absoluto silêncio – nem as intensas soluçadas fizeram barulho.
Desliguei o telefone, fui à copa, preparei-me um chá de hortelã. Não passou. Então acho que preciso escrever.
Acabou.
Acabou de vez e todos os prantos que eu segurei até agora – em qualquer expectativa de volta ou de um futuro feliz com ele – terá de ser solto. Porque depois daqui, não há mais nada. Nada que tenha a ver com essas coisas, que agora são só lembrança. Nada que tenha a ver com a barba dele, meio loira, meio marrom. Nada que tenha a ver com os nossos filhos que se chamariam Alice e Gael e estudariam no Liceu Moliere. Nada que tenha a ver com um pai cheio de livros, com um marido cheio de sorrisos, com noites cheias de vinhos.
Acabou.
Acabaram as tardes infinitas em museus, as filosofias de botequim e as sérias. Acabaram os jantares no Zona Sul, as viagens para Itaipava, as cervejas, as noitadas juntos. Acabaram os réveillons no meio dos braços dele, minha bochecha no seu ombro, o nosso edredom azul, nossa caneca de coração. Acabou o passado. O futuro.
Estou trêmula e desacreditada. Ele me disse para não ficar assim – “isso faz parte de um processo natural e passa. Esta foi a nossa decisão. Eu gosto muito mesmo de você, tenho um carinho muito especial.”
Quase o mandei tomar no cu.
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