segunda-feira, 19 de maio de 2008

TOMBADA

As pedras portuguesas do Rio de Janeiro são mesmo lindas. Brancas, irregulares, exóticas e duras. Muito duras para quem vai ao seu encontro, com toda força, sem possibilidade de defesa, estatelando-se no chão de Botafogo, como eu.
Caí e caí feio. Talvez tenha sido distração. Pressa, buraco no chão. Talvez não. Talvez tenha sido autopunição, ou uma infantil tentativa de chamar atenção. Na verdade, talvez mesmo eu deveria ser menos chata e interpretativa. Caí e pronto. Mas não conseguiria ignorar tamanho tombo tão facilmente, com este cotovelo ralado que arde e não me deixa esquecer. Dói também a mão esquerda e a perna direita.

Paro tudo e me concentro apenas na minha dor. Vou encontrando outras dorezinhas pela vida e o rádio do meu quarto – que toca qualquer programa de músicas meladas e nostálgicas – só ajuda na melancolia do momento. Deveria ser proibido programa mela-cueca às sextas à noite. Desligo o rádio e logo entendo o porquê desses programas. O silêncio berra muito mais alto e sinceramente, no momento, prefiro os berros da Lauren Hill. A audiência deve ser mesmo alta. Quantos outros chatos interpretativos também não estão escondendo o grito do silêncio agora?

Poderia sair. As noites de sexta-feira são tão cativantes que tenho certeza de que me esqueceria facilmente do cotovelo latejante. E do fatídico tombo com suas possíveis explicações psíquicas. Poderia me sentar em uma destas mesas amarelas, de plástico vagabundo, que populam as esquinas da cidade. Estas mesas com aquele poder de nos tele-transportar com a velocidade da luz. A passagem? Cinco garrafas de Skol bem geladas. Mas ainda não saí. Talvez nem saia. A toalha envolta dos meus cabelos encharcados me enche de preguiça e, magicamente, o Globo Repórter se torna o melhor programa da noite. Segundo melhor, aliás. O primeiro é o dor-de-cotovelo que toca no rádio – já tinha esquecido.

Sair toda ralada também não é boa idéia. Precisaria de, pelo menos, um Band-Aid e na minha casa só encontro escrotos curativos do Pluto, da Hello Kitty ou do Cascão. Merda de crise infantilóide que volta e meia me atinge e me faz gostar do xampu do Snoopy e meias do Bob Esponja. Mas também não quero interpretar estas intrigantes regressões agora. Já chega o tombo...

E a Laura Pausini agora vibra nas caixas de som e, num momento de completa autopiedade, encontro a razão de tudo isso. Foram as pedras portuguesas que me fizeram cair. As pedras portuguesas, a prefeitura, o César Maia, o Bob Esponja e a Laura Pausini. Uma verdadeira e completa conspiração contra mim... que não fiz nada.
(ou quase nada)

2 comentários:

Existe Amor em SP disse...

Seus textos realmente me aliviam....

Lex disse...

Essas pedras são como certas garotas... o que têm de bonitas, têm de perigosas, rs..

brincadeiras a parte, é realmente uma pena como as calçadas do Rio se tornam um obstáculo para os pedestres... acorda Prefeito!