sexta-feira, 9 de maio de 2008

Dia Seguinte

No dia seguinte, por algum motivo as mãos acordam ásperas. O resto do corpo simplesmente não acorda, e fica dormente, se arrastando pelas horas que não passam. Os cabelos ensebados de fumaça e eventuais pingos de cerveja - espero eu. Gosto não identificado na boca; é a mistura de álcool, restos de amendoins confeitados e sede.
No dia seguinte, o tempo volta a fazer sentido e se reordena. Na noite passada, não. Um minuto durava três horas e três horas duravam um minuto. Assim, sem muitas explicações. A cabeça pesada tenta agora descobrir a cronologia certa do que aconteceu. Utiliza as infinitas idas ao banheiro para marcar pontos de referência. Em vão.
No dia seguinte o celular denuncia as ligações feitas sem consciência. O conteúdo delas jamais será lembrado e a única pista que se pode ter é a conta no fim do mês, que acusa a duração de 20 minutos para cada ligação. Vagam pela memória algumas palavras soltas e a esperança de não ter feito nada de errado.
No dia seguinte o clamor por um banho e a inevitável promessa: vou parar de beber. Cérebro lento enquanto as paredes e o teto dançam rapidamente, deixando tudo muito mais embaralhado. Por que eles não param de girar, meu deus? A fome com o enjôo embutido impede de comer.
No dia seguinte a tela do computador grita e lembra o trabalho que há de ser feito. Ninguém está como você e é apenas quarta-feira. Vontade de sentar, de deitar, de ficar em pé. Tudo ao mesmo tempo. Vontades ilegíveis, impossíveis, ilícitas. Dores nos pés, no pescoço, na consciência. Não há Neosaldina que dê jeito.
No dia seguinte o preço que se paga por cada latinha. Muito mais do que dois Reais. Incalculável. Talvez, um dia, o fígado dirá. Não agora. Agora se tem vinte e poucos anos. E qualquer dia seguinte torna-se plenamente suportável e facilmente esquecido, num fantástico mecanismo de preparação do corpo para a próxima noite.
Falando nisso, qual é a boa?

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