I.
Não uso relógio, na maioria das vezes. Não que eu não goste de acessórios, muito pelo contrário, até. Porém, só costumo me enfeitar com detalhes meramente decorativos, sem nenhum tipo de função, mesmo. Nas poucas vezes em que aperto meu pulso contra uma pulseira de relógio, freqüentemente esqueço que carrego as horas no braço. Até o pobre relógio de pulso se restringe à minha excessiva vaidade que se resume em combinar cores e não informar as horas.
II.
Acordo de manhã e caminho em direção ao ponto de ônibus todos os dias. Apenas me servem os veículos que vêm com ‘Gávea’ escrito em seus letreiros frontais. Uma vez dentro do ônibus, só desço no final da longa Rua Jardim Botânico. Que parece ainda mais comprida com todo o engarrafamento permanente que a acompanha e eventuais acidentes que a surpreendem. Ah, se D. João soubesse de todo o gás carbônico que rega o seu precioso Jardim Botânico hoje em dia.
Acordo de manhã e caminho em direção ao ponto de ônibus todos os dias. Apenas me servem os veículos que vêm com ‘Gávea’ escrito em seus letreiros frontais. Uma vez dentro do ônibus, só desço no final da longa Rua Jardim Botânico. Que parece ainda mais comprida com todo o engarrafamento permanente que a acompanha e eventuais acidentes que a surpreendem. Ah, se D. João soubesse de todo o gás carbônico que rega o seu precioso Jardim Botânico hoje em dia.
Durante o percurso, cruzo outros carros, padarias, farmácias, uma loja de utensílios para banheiro. Lá dentro, além de pias e bidês pendurados pelo teto, há uma gigantesca tábua de privada com um relógio grande, no centro. Não sei se o criador do objeto carregava a intenção de propor algum paralelo entre merda e tempo, ou se isso é pura especulação da minha filosofia tão contratempo. Mas pouco importa. O que importa é que a tábua está lá, e é tão grande, que me permite enxergar as horas de dentro do ônibus. A privada então denuncia o meu atraso.
III.
Meu celular é um antigo Motorola preto que, pelo tamanho, até lembra dois biscoitos Cream-Cracker. Não troco por falta de dinheiro, por falta de interesse e por falta de paciência. Celular não é um item da minha longa lista de futilidades preferidas. Fico satisfeita por ele funcionar e pronto. Mesmo que seja só de vez em quando, pois muitas já foram as quedas. Na tela inicial, por trás dos arranhões e manchas de sujeira, estão estampados dois simpáticos bonequinhos palitos que acendem quando aperto algum botão. Faço isso para procurar pela preciosa informação que fica ali, discreta, no canto direito da tela: o relógio digital.
Meu celular é um antigo Motorola preto que, pelo tamanho, até lembra dois biscoitos Cream-Cracker. Não troco por falta de dinheiro, por falta de interesse e por falta de paciência. Celular não é um item da minha longa lista de futilidades preferidas. Fico satisfeita por ele funcionar e pronto. Mesmo que seja só de vez em quando, pois muitas já foram as quedas. Na tela inicial, por trás dos arranhões e manchas de sujeira, estão estampados dois simpáticos bonequinhos palitos que acendem quando aperto algum botão. Faço isso para procurar pela preciosa informação que fica ali, discreta, no canto direito da tela: o relógio digital.
Surpreendo-me. Pode ser esclerose, paranóia, distração, solidão, mas o fato é que ás vezes, mesmo com o relógio no pulso, a privada com ponteiros e o velho celular com a hora digital, ainda consigo me esquecer de tudo e ir de encontro a alguém para lhe importunar: por favor, que horas são?
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