terça-feira, 12 de junho de 2007

A pergunta não foi para mim

Diz que setenta por cento das pessoas que respondem à pergunta “Qual é o seu principal defeito?” falam que são muito ingênuas. Penso demais nos outros, sabe? Esqueço de mim mesmo, faço tudo por quem está à minha volta.

Ora, mas isso não é defeito. E nem verdade, diga-se de passagem. Se fosse, com certeza absoluta seriam raras as brigas em fila de banco, os divórcios, as discussões com a operadora de celular. Se a maioria das pessoas realmente fosse desse teor de pureza, nem filas haveria: setenta por cento da fila cederiam o seu lugar à próxima e à próxima e à próxima pessoa. Haveria uma harmonia imensa no mundo. Tão imensa que chegaria a ser enjoada. E não é isso que acontece. Pelo contrário, estamos temperadíssimos com mau humor e má vontade.

Dezessete por cento dizem que o seu pior defeito é ser perfeccionista. Péra lá. Esse defeito só é aceito em uma roda de cadeiras, com gente engravatada disputando uma vaga de trabalho. O meu maior problema é que sou detalhista, exigente, gosto de perfeição, e pimba!, a vaga é sua. Fora essa situação, é impossível que o perfeccionismo seja realmente a pior coisa que uma pessoa tem para confessar.

Oito por cento se dividem entre pequenos defeitos, quase que bons, de tão charmosos. Ansiosos, ciumentos, preguiçosos, bagunceiros e esquecidos brotam repentinamente, se aproveitando desses defeitinhos para não falarem dos defeitões. Porque esses, apesar de defeitos, não podem ser considerados como o maior problema de alguém. Caso haja alguma pessoa com sua pior qualidade justificada em ser preguiçosa, adoraria ser conhecê-la. Não haveria mais fácil convivência, ué.

Quatro por cento desconversam. Dizem que são muitos, inesgotáveis. Entre essas pessoas, com certeza existem os sinceros, vítimas da crise da autoconfiança. Devem também haver os cínicos, que tentam este caminho para desconversar e os indecisos. Que realmente não conseguem apontar um principal problema em sua própria personalidade, e talvez seja exatamente a indecisão o pior defeito nesse caso.

Um por cento, apenas, assume. Apenas um centésimo dos que respondem a essa pergunta encaram os gigantes - Tão temidos, tão difíceis, tão destruidores. Estou falando do Orgulho, do Egoísmo, da Raiva, da Inveja, e outros maiúsculos desse gênero. São eles os difíceis de serem falados, mais difíceis ainda de serem ouvidos e dificílimos de serem assumidos.

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