Eu sempre me dou uns minutos pela manhã para tomar meu iogurte com cereal horroroso que faz bem para a saúde. Diz que são as fibras.
Também aproveito para deslizar minhas pupilas rapidamente em cima dos jornais da mesa da cozinha.
Na minha casa cada um acorda em um momento e eu sou a última. A penúltima, às vezes. Então o jornal que leio já foi lido por outra gente. É fácil identificar um jornal que já foi lido. Mesmo dobrado e reorganizado, ele fica diferente e nós conseguimos entender ele dizendo que outras pessoas já passaram por ele.
Eu sempre leio as primeiras páginas. Adoro as notícias sobre o aquecimento global, em especial. Cada dia é uma novidade mostrando para a gente que estamos completamente fodidos.
Engraçado esse boom sobre o aquecimento só agora, que já é quase irreversível. Por que não descobriram antes? Devem ter descoberto, mas só descobriram que faz vender jornal agora, então não faltam mais notícias sobre o calor exacerbado do mundo.
Cada dia é uma nova conseqüência, um novo estrago, um novo prazo de validade para o planeta.
Vende jornal então só dá ele, o aquecimento! O degelo dos pólos, o El Niño, a camada de Ozônio, o cacete. Meu cereal está mole hoje, culpa do aquecimento terrestre. Bati o carro, o aquecimento. Zerei a prova, o aquecimento.
- Filha, levanta que você está atrasada!
- É o aquecimento global, pô!
Adoro esse aquecimento.
Tem um monte de gente aí se reunindo toda a hora para encontrar uma solução. Eles não entendem? Galera, já era! Mas vende jornal, então eles vão explorar tudo sobre o assunto. Para render história, até uma nova Terra encontraram. A apenas 130 anos de distância da gente. Não adianta de nada, mas a Super Terra combinando com o aquecimento global é edição esgotada na certa. Me pergunto se esta tal Terra nova foi mesmo descoberta. Vá saber...
Aí esses sabichões do clima resolvem que os países ricos têm que parar de poluír o mundo. Todos concordam, declaram que vão fazer e acontecer e não fazem nada. Dá-lhe monóxido de Carbono! Dá-lhe aquecimento global para vender jornal!
É bem verdade que eu não posso dizer muita coisa. Sou igual aos países ricos. Vivo fazendo-me promessas e quebrando-as no dia seguinte. Vou fazer dieta, não mato mais aulas, não me irrito mais com o porteiro. Aí me acabo num prato de brigadeiro, esqueço a prova de Linguística, "meu senhor, você poderia abrir a porra do portão?"
Também enrolo e deixo as coisas chegarem até as últimas consequências para me mover. Deixo a conta do celular bater em 200 Reais para parar de fazer ligações. Deixo meu armário não fechar as portas para arrumá-lo. Tomo iogurte e leio notícias até o último minuto de um atraso aceitável.
A diferença é que agora é só fechar o jornal, colocar a caneca na pia e pegar um taxi, ao invés do ônibus.
Quero ver o que vamos fazer com o aquecimento global sem ser vender jornal.
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