A minha memória não funciona bem na maioria das vezes. Dos meus poucos quase 23 anos, eu não lembro muita coisa. Rostos são os mais facilmente levados pelo vento da “desmemória”. Não é que não haja importância em lembrar de rostos, mas talvez, exatamente por conta disso, eles se vão e subitamente eu já não reconheço os que me conhecem.
Também, além de rostos, se soltam pelo caminho informações, acontecimentos, detalhes. Sinto-me como um carro que sobe uma ladeira e deixa sua bagagem pelo caminho através de um porta-malas furado. Cai uma barraca-de-praia, uma música, um álbum de imagens. Tudo vai sendo espalhado pela estrada por onde passo.
Não ter memória é um tipo de desconforto que provoca uma preocupação com o presente que nem aconteceu e já está na iminência de ser esquecido para sempre. E qual é a real função de acontecimentos se não para serem lembrados? Para quê encher o carro se tudo se vai pela estrada abaixo deliberadamente?
Enfim. Tamanho vazio.
Porém, existe um outro lado que parece ser criado para confortar este vazio. Bendita capacidade de adaptação do ser! Falta-me memória, sobra-me imaginação. Tenho imaginações das mais cínicas, que se maquiam de memória e me fazem acreditar que aquilo não foi perdido pelo tempo. Então eu posso lembrar de fatos que não estão no passado porque são meramente feitos, construídos, inventados.
O prazer da história é que eu não sei que são invenções, pois todas elas têm cor de memória. Assim, acabo podendo lembrar do que eu queria que tivesse acontecido. Privilégio meu que me esqueço do que realmente aconteceu.
Dia desses, lembrei de uma conversa solta em algum lugar que falava de cabelos. Rapidamente, como que puxada por uma âncora, remeti a memória à determinada cena. Éramos eu e ele conversando. Falávamos de cabelos. Em seguida, vieram-me detalhes à mente: eu deitada, meia luz, ele ao meu lado, paralelamente. Com a cabeça apoiada em seu punho, ele deixava seu rosto pertinho, me entregando seu hálito, suas cores, seus cheiros. Delícia lembrar aqueles momentos.
Na maioria das vezes a imaginação é muito eficaz e discreta, fingindo-se bem de memória. Porém, em alguns momentos, a lógica da realidade a transforma em inverossímil e a razão desconfia. Foi isso que aconteceu, desta vez.
Lembrei-me do fato de ele morar fora do país. Mero detalhe que me sugou, como que por um canudo, me tirando da memória-feita e me cuspindo na dura memória-real, que acabava de ser lembrada. Por fim, percebi que lembrara errado; inventara. A conversa sobre cabelos acontecera com ele. Porém, através de uma tela de computador.
Truques da imaginação, lapsos da memória.
Após recordar o fato concreto, fiquei infeliz. Percebi a realidade distante e a memória tão falha. E nesta mesma cronologia, fiquei feliz. Dei-me conta da valiosa imaginação que, apesar de mentirosa, tapa buracos da memória com fatos que, mesmo não tendo acontecido, quem irá dizer que eu não os vivi?
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