O Cirque du Soleil esteve na cidade e arrastou milhares e milhares de pessoas que arrastaram milhares e milhares de Reais para as bilheterias. Todo mundo fazia de tudo para estar no picadeiro em algum dos espetáculos durante as noites de Dezembro. Inclusive eu. Seis meses antes de o circo chegar, eu encarei uma fila caracolesca para entregar todo o meu dinheiro do mês num buraquinho em um grande painel com palhaços estampados. Em troca, recebi o bilhete que me daria o direito de assistir ao que toda a classe média da cidade também perdia seu salário para assistir. Como obediente garota-zona-sul eu logo tratei de ir atrás do meu ingresso e virar ainda mais garota-zona-sul. Imposições do circo que é a vida.
O dia chegou e era uma quinta-feira. Trânsito insuportável decorrente da hora do rush de uma cidade mal estruturada. Fome e vontade de chegar logo. Na entrada vendiam camisetas, pipocas e bebidas e o clima era mesmo mágico. Era um complexo de tendas com lojas, stands e até área VIP. (me pergunto se eu gostaria de ser VIP em um circo. O que isso pode querer dizer?) Em frente à grande tenda armada encontrei minha mãe, meu padrasto, minha irmã e seu ex-namorado – que ainda era namorado quando compramos os ingressos. Eventualidades do circo da vida.
Platéia cheia. Luzes, música, cores, pessoas fazendo o impossível lá na frente. Que bonito era. É claro que a publicidade que estava por trás de todo o show atrapalhou um pouco, pois acabou ficando à frente. Os cartazes luminosos gritando as marcas atrapalhavam nossa visão. E também atrapalharam a pobre da francesa que, simpaticamente, aprendeu umas frases em português para gritar “respeitável público” e foi obrigada a se prolongar agradecendo ao “Visa – a vida é agora”, “Bradesco – completo”, “Sabonetes Albany – para as diferenças”, etc. A tal da publicidade também foi a responsável pelo desvio de atenção da própria platéia em relação ao que acontecia lá no palco; as propagandas se utilizaram tanto dos números do espetáculo, que enquanto a menina se equilibrava nas cordas a metros de altura do chão, ouvia-se baixinho de algum lugar “olha pai... a propaganda daquele banco!”. – Conseqüências do circo que pode ser a vida.
Acabou o espetáculo e eu queria mais. Naquela altura eu já tinha me rendido ao balde de pipocas mais caro da minha vida e nem fome sentia mais. Me deu uma vontade de fazer parte daquela coisa linda que eles tinham acabado de me mostrar. Me deu vontade de morar ali, fazer parte daquela tenda. Mas nunca poderia. Eu não sei jogar bolinhas para o alto e nem me pendurar num balanço lá no céu. Eu não sou engraçada, não tenho força e nem sei se teria toda a determinação que aquele pessoal lá deve ter. Eu não encosto o calcanhar na cabeça, não dobro a língua, não levanto as pálpebras, e nem mexo a orelha. Nunca plantei bananeira, nunca virei uma estrela e morria de medo de descer a rampa do play de bicicleta. Vai ver eu não quis ser do circo pelas esquisitices que eles apresentam para nós, pobres mortais. De repente, eu quis ser do circo só para sair um pouco do meu mundo, mesmo. Como numa fuga de emergência. Logo eu que nunca fui de cambalhotas... Ironias do circo que está a minha vida.
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