Quando eu era criança, bem criança mesmo, eu pensava em juntar todas as lágrimas que eu chorasse, colocá-las num potinho e guardar até o fim da minha vida, juntando-as. Ao mesmo tempo, eu pensava que não seria possível, pois já havia chorado muitas outras lágrimas até aquele momento, então eu nunca conseguiria guardar todas, absolutamente todas as gotinhas que meus olhos produzissem durante a vida.
Outras horas, eu pensava em guardar todas as melecas. Sério... Pensava em fazer uma bolinha com todas as melecas que eu produzisse na vida. Mas aí, também não seria possível, pois muita meleca já tinha sido tirada (ou comida) naquela altura da minha vida, até aqueles tão poucos 6 anos.
Hoje, quando eu lembro disso, acho engraçado. Guardar as lágrimas... Ou as melecas... Se tivesse guardado, será que eu já teria um balde de lágrimas? Ou uma bola de futebol de melecas? E aí? Onde guardaria, o que faria, para quê teria? E é exatamente aí, que eu me pego; tantas outras coisas que eu guardo e não tenho nem onde colocar, nem o que fazer e nem um motivo para ter. Tanta coisa que eu acabo mantendo, simplesmente por manter. Não só eu, provavelmente. Por a gente já perder tanto durante a vida, acho que na hora de perder por opção, na hora de escolher por deixar ir, fica muito difícil e a gente acaba segurando e guardando mesmo.
E aí, é um armário inteiro de pequenas moedas, passagens e cartões acumulados em viagens feitas. São caixas inteiras lotadas de cartas recebidas e raramente relidas, guardadas e dobradas. São vidas preenchidas com pessoas não-mais-queridas, às vezes ocupando até o lugar das pessoas-ainda-queridas. Tudo guardado, com medo de ser perdido, com medo de deixar ir, sem função, sem sentido, sem lugar.
Ainda bem que pelo menos as lágrimas e as melecas eu consegui não guardar. Muitos já são meus espaços ocupados por lembranças e momentos que eu não tenho coragem de dar fim, uma bola de melecas ou um pote com lágrimas seria ainda mais trabalhoso.
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