quinta-feira, 4 de março de 2010

Sim. Tem que ser assim.

Ela tem pais casados, que jantam juntos, que assinam o boletim, que planejam outros filhos totalmente planejados, que não compram refrigerante, que não falam palavrões na frente das crianças e não deixam que elas comam chiclete nas festas infantis.

Ela vai para a escola de padres, tem notas boas, faz rabo-de-cavalo esticado, escova os dentes depois do recreio, tem régua, caneta e borracha.

Ela não tem muitos amigos, não desce pro play, não vai à matinê, não brinca de salada mista. Ela gosta do primo mais velho que tem olhos azuis, ela acha que olhos azuis significam muita coisa, ela vai para a Disney, ela coleciona figurinhas da Pequena Sereia, ao invés das do Chapolin.

Ela aprende inglês, faz balé, curso de desenho, ela usa aparelhos, não usa salto, nem maquiagem, nem esmalte. Ela não pinta os cabelos, nem fuma maconha, ela não dorme de madrugada, nem acorda à tarde, ela não come glúten, faz Direito, toma um gole por mês e um porre por ano.

Ela trabalha de meia-calça. Tem carro, dinheiro, um namorado de cinco anos e, pendurado, um anel dourado no dedo direito da mão. Ela faz limpeza de pele, luzes no cabelo, não anda de ônibus e até hoje escova os dentes depois das refeições. Refrigerante, agora ela toma: zero. Ela fala baixo, fala pouco, geme pouco, bebe dois litros de água por dia, não fala gíria, ela é perfeita.

Ela casa, trepa, engravida, ela planeja tudo conforme faz, ela faz tudo conforme planejado. Vende o carro para ter filho. Ela tem uma menina que só usa rosa, que chora baixo, que tem olhos azuis, como os do marido, como os que ela tanto valoriza.

A filha cresce com pais casados, que jantam juntos, que assinam o boletim, que planejam outros filhos totalmente planejados,...

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