Você esqueceu. Queria eu não ter lembrado, mas sempre que penso em não lembrar, já lembro. É como aquela história de não pensar em melancia, sabe? Já está a melancia no pensamento. Ou como aquelas outras histórias das plantinhas muito verdes e cuidadas, das tardes de domingo, da praia que era esquecida, da estrada, dos vinhos, dos livros, dos pra sempre. Essas histórias que, na tentativa de serem esquecidas, são mais lembradas do que nunca.
Você esqueceu. Esqueceu o que será inesquecível pelos próximos anos – sabe-se lá quantos. Espero que poucos, espero aos poucos, até esse tal inesquecível se esquecer dele mesmo. Aí eu também esquecerei. Logo eu que me esqueço tão facilmente de tudo; de levar meu Rio Card na bolsa, da cara daquele seu amigo de escola que vi na Lapa, de pagar a conta de celular no dia, do que fiz ontem depois da cerveja.
Você esqueceu. É ruim ser esquecível, principalmente quando se é uma pessoa com crise de estrelismo, como eu, que nunca achou que fosse qualquer coisa perto de esquecível. Me danei, me enganei. Tudo é plenamente substituível – o porteiro do meu prédio, a secretária que trabalha ao meu lado, a sobremesa que deixei queimar, os óculos escuros que perdi, eu, você. Você também, pombas! – tenho que aprender isso rápido.
Você esqueceu. Deste dia, restou uma imagem muito colorida, com balões vermelhos e amarelos, uma praia azul no fundo, pessoas sorrindo, a lua, o céu negro, luzes alaranjadas, meus cabelos suados em uma música rápida, e uma quina, lá no canto esquerdo, que ficou em branco. Faltou uma cor. Está faltando até agora. E vai ficar.
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