domingo, 1 de julho de 2007

Mais domingo

Eu estava visitando a jaula das onças. Tinham na verdade dezenas de onças naquela jaulinha. Coitadas. Eu estava sentindo pena quando de repente, uma campainha muito alta começou a soar dos céus. Beem- beem-beem. Repetitivamente. As onças se entreolhavam, as pessoas estranhavam e eu, de alguma forma, reconhecia aquele som.

Acordei com o celular aos berros. Era o meu pai. O meu pai adora me acordar nos finais de semana. Alô? (todo animado, de algum lugar barulhento) Opa, filha!!! Estava dormindo?
Mmnmn...
Ainda? Você dorme demais!
Mnmnm...
Já sei. Saiu ontem?
Mnmnmm.
Ok, ok... Depois nos falamos então.

Nunca consigo pegar no sono novamente depois dessas conversas matinais. Que mania, a dele.
Desliguei o celular e o visor do aparelho me avisou de que já passava do meio-dia. Olhei para a janela e no caminho entre os meus olhos e a parede, estavam uma saia, uma bolsa, uma chave, um copo vazio, uma carteira de motorista, um lápis de olho, uma cola super bonder (mas o que aquela cola está fazendo ali?), o controle do rádio.
Pensei em levantar e olhei para os meus pés. Murchos de frio. Cobri-me novamente e virei para o outro lado. Na parede rosa se formavam imagens de pensamentos. Pensamentos longos e macios, com gosto de sonho. Uma leve dor na coluna e um cheiro de ontem preenchiam o ambiente.

Finalmente deixei a cama. De olhos fechados, na ponta dos pés, fui até o banheiro. O azulejo frio do piso deu uma despertada no meu corpo ainda dormente, mas não o suficiente para me fazer abrir os olhos. Tateei pasta de dente, toalha de rosto, papel higiênico. Acendi a luz e me encarei no espelho. Olhos pretos de maquiagem derretida. Cabelos embaraçados, boca ressecada, marcas de lençol pelas bochechas. Agradeci ter acordado sozinha. Do banheiro fui direto à cozinha. Água. Água, pão integral e manteiga. Balbuciei qualquer coisa com a geladeira que, vazia, me encarava e parecia debochar. O dia ia ficando mais nítido na medida em que eu me elucidava para o domingo.

Domingo é sempre meio morno. Sempre meio chato. Sempre meio meio. É o intervalo entre o que aconteceu e o que vai acontecer. É a porta em que a segunda-feira bate ferozmente. É a contagem regressiva para a semana toda começar de novo. E de novo. E de novo. Fazer o quê? Pego fôlego, tapo o nariz e que venha a segunda, então.

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