sexta-feira, 1 de junho de 2007

há-há-há, muito engraçado.

Eu quero a sorte de um amor tranqüilo com sabor de fruta mordida, disse o bom e velho Cazuza. O destino é irônico muitas vezes. Aliás, muitas vezes não. Sempre. O destino é sempre irônico com todos nós, pobres mortais à mercê de alguém poderoso e mestre em ironias, chamado destino. – Deus, para os mais católicos.
Eu vinha saindo do trabalho com uma dor de cabeça borbulhante, conseqüência do cansaço e das muitas horas sem comer. Entrei no ônibus em direção à faculdade, muito contra a minha vontade, na disposição de encarar o trânsito infinito de uma sexta-feira no Rio de Janeiro.
O dia até que não tinha sido ruim. Alguns detalhes anti-rotineiros aconteceram e tudo ficou um pouco menos chato. Mas por mais que o meu dia tivesse sido o melhor do ano, o melhor da vida toda, depois das dezoito, sempre haveria aquele tédio impaciente de final de sexta-feira. Esse cenário geralmente me deixa com um humor ácido e uma inspiração única para me isolar do caos frenético da cidade, em um ataque quase irreversível de anti-sociabilidade.
Como ia dizendo, entrei no ônibus e me encaixei no primeiro banco, ao lado de uma outra menina, em diagonal com a roleta, em frente ao trocador. Tão logo, comecei a ouvir uma música - era um pagodinho. À medida que ansiava para aquele som se distanciar, ia percebendo que estranhamente a música continuava alta e estridente. Não era possível; uma banda copacabanense de pagode barato com churrasco de beira de esquina ambulante? Não. Um rádio dentro do meu ônibus. Do motorista. Aos berros. Éfe ême o dia.
Tentei me distrair para não me afundar naquele poço de mau humor que parecia me encarar e dizer: “venha”. O velho quase dormindo do outro lado do corredor distraiu, mas o “meu coração não güenta ver você com ele” foi mais alto na minha percepção. Percepção! Comecei então a me lembrar dos papos com minha irmã sobre psicologia, a Gestalt, a seletividade da mente, “você ainda vai pagar pelo que fez / vai chegar a sua vez”. Belas rimas... Vamos então pensar em poesia! Isso! Como era aquela? Aquela que recebi por e-mail e falava de saudade? Saudade... “saudade de você na minha cama e das luzes do motel...”
Não dava. Me atirei então no tal poço do mau humor e à medida que eu ia me afundando, o trocador parecia cantar ainda mais alto absolutamente todas as letras. Era o inferno sobre rodas, guiado pelo próprio diabo.
Minha cabeça doía ao ritmo daquele chocalhozinho tchuc-tchuc, em cima-embaixo, latejando.
Propaganda na programação radiofônica. O motorista parecia não gostar de anúncios, não queria acabar com aquele clima harmonioso e fantástico de cantoria plena. Mudou de estação.
Num golpe esplêndido do destino, ele muda de estação e pára onde Cazuza cantava. Mais ironicamente ainda, sobre o quê ele cantava? Não, não era sobre o dia nascer feliz nem do tal beija-flor com segredos de liquidificador.
Ele cantava para mim, quase que chamando o meu nome. Recitava-me aqueles versos no meio do silêncio aparente que o resto do mundo resolveu fazer. Eu senti que era para mim. Era o destino que tinha encontrado uma maneira de falar comigo e dizer “olha aqui, sua menina metida a espertinha, com esse mau humor burguês, justificado no pagodinho do motorista: este não é o seu real problema. O seu problema mesmo, causador dessa sua irritação crônica, é que você quer a sorte de um amor tranqüilo, com sabor de fruta mordida.” Há-há.

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