sábado, 30 de junho de 2007

1988

Quando eu era criança, ia à praia em Ipanema com um baldinho amarelo. Minha mãe se acomodava em sua cadeira, lia jornal, conversava com suas amigas, tomava laranja com cenoura. Para mim, aquilo não era praia. Praia era a beira d’água, onde eu me sentava e passava o dia brincando com a areia, interrompida, apenas, por alguns intervalos para proteger-me do sol:
- Filha, vem passar Noscote.

Brincar com a areia era a minha diversão. Gostava de construir castelos. Toda criança gosta de construir castelos. E todo adulto também.
Eu tinha um ritual; assegurava-me de que meu castelo não seria destruído por qualquer onda ou por uma descuidada bolinha de Frescobol. Nunca fui de construir castelos frágeis. Enterrava os dedinhos na areia úmida (que é a mais rígida) e construía centímetro por centímetro. Depois, ainda, apertava em minhas mãozinhas um pouco de areia seca e cobria a construção: torres, janelas e sonhos estavam seguros ali. Sempre fui de procurar um bom punhado de areia cuidadosamente (o melhor, o mais perfeito, o mais seguro) e segurá-lo firme com meus dedos, para não deixar escapar. Para ser parte dos meus castelos.

Lembro-me de outras crianças construtoras na beira do mar. Algumas não tinham o mesmo talento com seus castelos. Até cuidavam para encontrar a melhor porção de areia. Também cravavam os dedos para agarrar os grãos escolhidos. Mas erravam em um ponto: não tinham firmeza. Ficavam de mãos abertas, sem saber o que fazer, sem saber como construir castelos. Essas crianças desafiavam as leis da Física, mantendo seus finos dedos esticados e confiando nos grãos que ali se equilibrariam. Tolas, elas. Não percebiam que assim não sobrava grão algum. Não se davam conta de que se não fechassem os dedos com força, escorreriam-lhes mãos abaixo os grãos, os castelos, os sonhos.

Muitas dessas crianças acabavam por desistir. O mar está forte hoje, a areia está muito mole, o vento atrapalha, eu não preciso de castelos.
Enquanto isso, eu continuava com vigor minhas construções. E mesmo que nada pudesse me garantir que meu castelo sobreviveria a uma onda ou outra qualquer eventualidade de Ipanema, eu continuava selecionando cada punhado de areia. Segurava firmemente cada partícula entre os meus dedos. Para não perder nenhuma, sequer. Para garantir que virariam todas tijolos naquela minha construção de areia, de sonhos, de castelos.

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