E então ela ouviu a notícia. Saindo assim, meio que sem som, mas ao mesmo tempo, como se berrasse ao coração dela. As palavras faladas pela irmã, meio rápidas, saíam de uma boca que combinava com uns olhos arregalados e preocupados e entravam no ouvido dela, que combinava com olhos já meio tristes. No meio da noite, ela ouviu e então, tudo anoiteceu ainda mais. Foi no meio daquela música alta e estridente que lhe foi falado “ele está com outra”.
Naquele momento, a pobre menina desabou. Ao mesmo tempo, sentiu uma estranha e agradável sensação de alívio – tanto já era o que ela conhecia dele que sabia que, mais cedo ou mais tarde, isto aconteceria. Tamanha era a frieza e inconstância dele, tão conhecidas por ela, que ela pensou aliviada “pronto! Aconteceu, não preciso mais esperar ou ficar apreensiva, já passou”. Claro que tudo isso misturado com o pior sentimento do mundo muito freqüente na vida dessas meninas de vinte-e-poucos-anos. Aquele sentimento tipo cachoeira, de onde descem todos os planos, os sonhos e as expectativas velozmente, sem parar para pensar, sem haver tempo de voltar. Despencam todas as coisas que ela sonhou de lá de cima, se despedaçando em gotas e evaporando.
Ela desejou muito ver. Ela queria ver os braços dele nos de outra. Queria saber quem era essa outra, mais bonita, mais gorda, mais inteligente? Queria também ver, por acreditar que a última cena ficaria na sua memória e seria uma ajuda para esquecer as outras cenas, que a fizeram cair de amores. Acreditava que a intensidade de momentos nada teria a ver com as marcas que ficam na memória. Para ela, o tempo em que os fatos aconteciam, era então o regulador das coisas que virariam lembrança. Por isso, ela achava que a última cena dele seria assim a mais lembrada. Até então, sua última cena dele era linda, dentro do carro, ele com um sorriso bobo. Para sua frustração, não o viu. Não conseguiu substituir a tal última cena, apesar de tê-la imaginado diversas vezes, de diversas maneiras, pelo resto da noite.
Dormiu. Não o fez antes de chorar. Chorou todas as lágrimas guardadas, todas as cervejas bebidas, todas as dores da vida. Chorou e dormiu. Quase sem tempo para respirar, chorou, dormiu e acordou como que num ciclo de recuperação e resolução de problemas, mesmo sabendo que nada seria resolvido. Acordou triste, desejando que toda aquela realidade tivesse sido um sonho e que o seu sonho, por sua vez, tivesse então sido a realidade. (mesmo sem se lembrar do que havia sonhado... mesmo sem sequer saber se sonhara de fato, ainda assim, o nada e o vazio sem lembranças de um sonho seria melhor do que aquela realidade).
Não se preocupou mais. Com toda a sua racionalidade, ela sabia que tudo era apenas mais um caso de um louco amor com um final triste e com vontade de morrer. Com a toda a sua racionalidade, a menininha sabia que todo o fim marca na verdade, um começo, mesmo que ninguém saiba disso quando o fim acontece. Com toda a sua racionalidade, a menina sabia que o mundo gira, que pessoas vêm e vão o tempo todo e que tudo, absolutamente tudo, reage num movimento de ação e reação com forças iguais e contrárias, quase que numa equação de Física. Não se preocupou mais. Ficou tranqüila. Porém, esperando toda essa racionalidade tão sabida deixar enfim de ser mais fraca do que o coração, para começar a entrar em prática e aliviar toda aquela tristeza que estava lá dentro.
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