segunda-feira, 9 de novembro de 2009

De pernas e braços abertos

Talvez, na vida toda, eu tenha tido dois amores.
Qual será a velocidade do meu corpo caindo do abismo?
É a mesma que, agora, embala minhas reflexões de passado, presente e futuro.
E o peso de mim mesma caindo, enfim, no chão, é o mesmo que me atormenta quando coloco a cabeça no travesseiro todas as noites.
Porque quando me impuseram tudo isso, se esqueceram de me explicar.
Mas eu não preciso de explicações, lembra?
E é nessa hora que duzentos violinos começam a tocar para mim.
Um por um, todos aqueles que eu não aprendi a tocar.
Danço e me arrepio – sempre gostei de violinos.
Penso na saliva gasta aleatoriamente. Em gestos, em verbos, em sexos.
Tanto jogado fora para ser arrependido.
E, pior!, tanto que é guardado para ser, igualmente, arrependido.
É uma rua sem saída, não tem jeito.
E quando estalo minha cara na porta fechada, lembro daquela música que tocava quando eu ainda não era eu.
E a inocência cega me cobria – eu ainda não sabia da queda do abismo.
Mas tá aí; até que eu gosto. O vento na cara, cortante, é bom.
E é nessa hora que o coral de vozes agudas – daquelas que eu nunca tive – começa a cantar.
Lembro de fotografias inúteis, que só servem para estampar como sabemos fingir sorrisos.
Fingir amores, fingir sabores.
Todos artifícios para maquiar a cara que o rosto faz enquanto cai.
E a angústia de ver o chão chegando mais perto, a cada pulsação.
E quantas ainda terão?
O importante é cair.
É a hora da queda, a hora que eu ligo meu rádio para ouvir o barulho dos que me ignoraram.
Ouço guitarra, bateria, agogô. Violão não, que é muito doce para expressar a tristeza do silêncio. Desse silêncio que fica agora, quando acabo minhas palavras.

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