domingo, 13 de setembro de 2009

Noite carioca

Ela se balançava enquanto o The Doors berrava nas caixas de som. Com um vestido muito moderninho, ela ora ia para um lado, ora ia para o outro. E sacudia os ombros para a frente, ao mesmo tempo em que os cabelos, descaradamente tingidos, iam para trás.
Ela sabia que ele olhava.
Ela sabia que ele queria.
Ele não.
Ele não sabia que ela sabia.
E então, continuava ali, parado com o queixo para cima e os olhos para baixo, acompanhando de longe os movimentos dela. Enquanto isso, um cigarro ia e voltava de sua boca, suspensa por um corpo muito estável, que se vestia em uma jaqueta de couro preto. Um dos pés, no chão; o outro, na parede. A fumaça, para cima.
A mesma fumaça, recém saída de sua boca, carregava o seu hálito e encharcava os cabelos dela, que continuavam na pista, agora se sacudindo ao som de The Strokes.
Ele ainda não sabia que ela bebia demais.
Ela ainda não sabia que ele tinha um Opala verde.
Ele ainda não sabia o seu telefone.
Posso saber? Ela sorriu. Envolveu-o com seus braços e sentiu seus ombros de pouca carne. Rebolou-se até o chão, buscou o cigarro das mãos dele e tragou profundamente – como se fumasse há vinte anos. Ele, estagnado, só observava e seguia o que ela sugeria.
As luzes piscavam rapidamente e deixavam os movimentos extremamente lentos.
Ele tentava enxergá-la melhor, ela fechava os olhos.
Ele ainda não sabia que ela tinha pelos encravados na virilha.
Ela ainda não sabia que ele acordava e tomava Nescau com açúcar.
Ele ainda não sabia que ela tinha uma tatuagem nas costas.
Ela ainda não sabia que ele ligaria no dia seguinte. E no outro, e no outro, no outro, no outro...

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