sexta-feira, 13 de julho de 2007

Lá e cá

Lá fora um avião cruza o céu, indo de algum lugar a outro qualquer, rasgando o firmamento com seu ruído. Alguém varre a calçada, o sol caminha por seu bom e velho trajeto de sempre, um vento sopra a poeira da tarde.
Aqui dentro, um caos. Vários frasquinhos guardando os mais diversos sentimentos. Uma ansiedade fria, uma vontade pelando. Lágrimas disfarçadas, uma pobre salada de alface e tomate, seis copos d’água, um grito alto e um coração.
Lá fora, uma televisão alheia cantando comerciais vergonhosos. Um exército de pessoas em constante movimento, três paredes pintadas de verde, uma porta entreaberta.
Aqui dentro, várias portas abertas, escancaradas. E fechaduras sem chaves e buracos sem tampas, sem fundos, sem nada. Aqui dentro uma música fina e contínua, que transborda em infindáveis palavras. Uma loucura, uma insanidade, uma falta de ar.
Lá fora um relógio que nos aparafusa na realidade e não nos deixa ir muito longe. Cenas perfeitas, pessoas adestradas: devidamente felizes, estampando sorrisos e cortesias no pano cinza que é a vida.
Aqui dentro, uma preguiça de tudo isso. Olhos baixos e cansados. Falta a purpurina de lá de fora. Falta muita coisa ainda. Aqui dentro, lembranças desbotadas e umas frases ecoantes.
Lá fora, a gravidade. Os dias, os sabores, os picolés, as buzinas, os óculos escuros, a dor na coluna, o O.B., as escadas rolantes, o preço da gasolina.
Aqui dentro, o infinito. Uma aquarela, um cobertor, um bocado de band-aids, uma tristezinha úmida, borboletas, uma euforia.

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