quinta-feira, 26 de julho de 2007

Contos de ventilador

Eu fui o único a testemunhar. Incessante, trabalhei com minhas hélices a noite toda para fazer aquele ar circular. Essa é a função que nós, ventiladores de teto, temos. Gostamos de ficar junto ao céu, girando, como se não pudéssemos ver o que acontece lá embaixo. Mas podemos. E quase sempre somos os únicos a testemunhar as cenas de amor, de sonhos e de paixão que acontecem entre quatro paredes.

Naquela madrugada, eles chegaram cambaleantes e sorridentes. Efeito etílico, provavelmente. De cima, percebi a menina deitando na cama dele, com olhos confortavelmente fechados. Enquanto isso, ele soltava no ar mastigadas com aroma de tangerina. A menina não era nova para mim. Já a havia visto em algumas madrugadas, em outras cambaleadas dos dois dentro do quarto: entravam, se demoravam uma, duas horas e saiam. Dezessete minutos depois ele voltava, sozinho. Sempre assim, até aquele dia.

Os meus companheiros apostaram que seria tudo igual. O abajur modernista, a tv tela plana e a discreta coleção de DVDs disseram que ela nem apareceria naquela madrugada. Já estavam fora da aposta. A geladeirinha, o guarda-roupa de madeira e a pintura do Dali juraram que ela viria, mas iria embora. Eu, com toda minha sensibilidade de ventilador, fui o único a dizer que não. Que desta vez ela ficaria até amanhecer. Acertei.

Eles dormiram juntos. Junto a um ar que estava cheio de outros ares. Dentro daquele cheiro da bebida do dia anterior. Misturado ao cheiro da roupa dela, perdida dentro do quarto dele e ao cheiro do gosto dele, perdido dentro do corpo dela. Vantagens de ser um ventilador de teto; vivemos a vida pelos cheiros que ela tem. E que delícia é poder sentir o cheiro do sono, o cheiro do riso, o cheiro da vontade. Naquela manhã, o cheiro era de frio.

Ela acordou primeiro. Ele, logo em seguida. Acordaram e rolaram e riram e dormiram e acordaram e levantaram. Alguma coisa acontecia. Desvantagens de ser um ventilador de teto; não temos bons ouvidos e ficamos limitados apenas a assistir ao que acontece bem embaixo de nós, sem muita compreensão. Eles se moviam pelo quarto. Juntavam as peças de roupa, soltavam uma ou outra palavra. O cheiro de frio aumentava. Desligaram-me e saíram. Alguns minutos (não dezessete. Menos, bem menos) e ele voltava sozinho.

Talvez se eu fosse o travesseiro dele, ou o controle-remoto, soubesse o que acontecera. Como ventilador de teto, não soube. Apenas sei que alguma coisa houve. E por causa disso, não paro de perder apostas com meus companheiros. Porque a menina até vem, mas nunca mais esperou a madrugada passar para ir embora.

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