sábado, 23 de junho de 2007

Café-da-manhã

A chuva lá de fora entrou com ela; em seus cabelos, em seus sapatos, em seu coração. Olhou ao redor, até que suas pupilas encontraram. Ele. Uma mesa alta e redonda. Um banco vazio. Entre o olhar dela e o rosto dele, havia apenas o cheiro de café fresco daquela manhã. Ele, barba por fazer. Ela, cachecol azul claro. Ele hipnotizado. Ela se aproximava.

- Um café.
- Um chá.
- Você demorou.
- Desculpa.

O cheiro de café amargava o ambiente. Ele tentava adocicar tudo com persistência. Cotovelos apoiando o queixo. Olhares atentos, ouvidos abertos, três colheradas de açúcar. Ela também sentia o gosto áspero no ar. Tentava adoçar, falava sobre suas aulas, desviava o olhar, soprava o chá, cinco gotas de adoçante.

- Eu te liguei.
- Eu sei.
- Você não atendeu.
- Não quis.

Os goles ferventes esquentavam o corpo, mas não a alma. O abismo entre os dois era já palpável. Provocava frio na barriga, tamanha era a altura do precipício. Nenhum deles desejava saltar. Já haviam construído fortes, defesas, cada um em sua extremidade. Tentavam agora entender. Entender sobre as coisas do fim, sobre o tempo que parava em um ponto do passado e não andaria mais, sobre o navio que partira e não carregava aquele amor. Onde estaria agora todo o amor? Provavelmente lá embaixo do abismo.

- Você pensou?
- Pensei.
- E você tem certeza?

Ela não respondeu. Descansou a xícara no pires pingado de chá de erva-doce. Com olhos baixos ainda, amarrou seu cachecol de volta ao redor do pescoço. Abriu a bolsa, tirou dois Reais, um livro e uma chave, num chaveiro de coração. Arrumou tudo em cima da mesa, evitando subir o olhar. Respirou e piscou devagar. Sentiu o cheiro da angústia dele em sua face e não agüentou mais. Decidiu por ser então rápida. Arrastou os objetos pela mesa até o lado dele. Levantou o olhar e o corpo.

- Toma.

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