quinta-feira, 5 de abril de 2007

Chororô

Sabe quando você nada e nada pelo mar de Ipanema, tranqüilo, até que vem uma onda inesperada e te leva de volta para a areia? E aí você não entende, morre de vergonha das pessoas que estão em volta – aquelas que conseguiram ultrapassar as espumas brancas raivosas que te fizeram perder a direção. E sente um pouco de dor em um eventual arranhão no joelho causado por uma das inúmeras cambalhotas que o movimento da água te fez dar. Cambalhotas são uma delícia quando dadas no chão, cabeça, coração e pés encolhidos. As cambalhotas obrigatórias são mais doídas. O corpo perde a forma e o olho só vê cinza. Então, lá jogado no meio da areia, você demora um pouco para se recuperar. Primeiro lembra que estava feliz, nadando. Depois, lembra de um muro verde-azulado chegando sem aviso. Entende as cambalhotas doídas. E lembra que tem que se ajeitar e levantar, para se encaixar na realidade dos 40 graus de novo. Você se levanta e, com movimentos tremidos e pés pouco firmes, vai voltando para o sol escaldante, se privando de nadar novamente, com medo de outra forte senhora te derrubar. Finge que está tudo bem e se deita na areia, embaixo de raios que cegam, por sorte. Respira e descansa. Até que a extraordinária capacidade de esquecer que a memória humana tem te faz pensar no restaurante que você vai almoçar, na lavagem do seu carro, no Domingo com seus pais. E as cambalhotas tristes são escondidas. Mas dentro, bem dentro o doce foi embora. O sabor suave foi substituído pelo sal que corta a garganta. E o corpo se sente esquisito. Com litros de água acumulada por dentro. Sensação de nariz entupido, garganta fechada, ouvidos estalando. De fato, a onda devastadora e inesperada que te tirou da sua tranqüilidade te deixou cheio de água por dentro. É hora de tentar aliviar e colocar essas gotinhas salgadas para fora. E elas, estranhamente, saem pelos olhos e escorrem pelo rosto, de volta para o mar. Para que não faltem gotas para as outras ondas que ainda virão.

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